Relatório enviado ao STF aponta que informações protegidas do Ministério Público Federal teriam sido obtidas por meio de acessos funcionais de servidores e repassadas ao ex-dono do Banco Master.
A Polícia Federal concluiu que um grupo ligado ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, teria obtido acesso a informações sigilosas de processos do Ministério Público Federal (MPF) utilizando logins funcionais de servidores do órgão.
As informações constam em um relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que foi tornado público nesta sexta-feira (11) por determinação do ministro André Mendonça.
Segundo o documento, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, teria atuado como intermediário entre Vorcaro e sistemas internos do MPF. Mourão morreu em março deste ano, após ser preso na operação Compliance Zero, em uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.
De acordo com a investigação, Mourão integraria o núcleo chamado “A Turma”, apontado pela PF como uma estrutura voltada ao monitoramento, intimidação de pessoas e produção de informações relacionadas a investigações envolvendo o banco.
A Polícia Federal afirma que Mourão recebia cerca de R$ 1 milhão por mês por atividades que incluiriam obtenção de dados sigilosos, coação e elaboração de dossiês.
Acesso a sistemas do MPF
O relatório descreve conversas entre Mourão e Vorcaro nas quais o intermediário teria oferecido acesso a informações protegidas do Ministério Público Federal.
Em junho de 2024, Mourão teria enviado ao ex-banqueiro uma lista de nomes e empresas e informado que seria possível incluir outros alvos para “puxar os sigilosos”. Questionado sobre quais documentos desejava receber, Vorcaro teria respondido: “Todos, obviamente”.
No dia seguinte, segundo a PF, Mourão afirmou possuir “acesso total e ilimitado” aos sistemas do MPF, embora não soubesse informar por quanto tempo as consultas permaneceriam disponíveis.
Em julho de 2025, o relatório aponta que Mourão compartilhou com Vorcaro uma consulta realizada nos sistemas do MPF utilizando os termos “BRB AND MASTER”. A resposta atribuída ao ex-banqueiro teria sido: “Quero tudo. Atenção total”. Mourão respondeu que iria solicitar novas consultas.
Caso do helicóptero
O relatório também cita um episódio envolvendo um helicóptero que teria sobrevoado a residência de Vorcaro, na Bahia, em janeiro de 2025.
Segundo a PF, o ex-banqueiro enviou uma imagem da aeronave a Mourão e relatou que ela permaneceu cerca de 40 minutos realizando sobrevoos na região. Mourão teria dito que seria necessário identificar o responsável pelo voo e quem estava a bordo, acrescentando que seria preciso “ir em cima”.
Ainda conforme a investigação, horas depois Mourão encaminhou um documento com identificação do MPF classificado como “URGENTE/SIGILOSO”, direcionado a uma empresa de serviços aéreos.
O documento solicitava informações sobre o contratante da aeronave, itinerários, horários de voo e passageiros, além de pedir que o contratante não fosse informado sobre a solicitação.
A Polícia Federal, porém, apontou irregularidades no material analisado, como a ausência de assinatura digital ou manuscrita no documento, apesar do caráter urgente e sigiloso da requisição.
Em seguida, Mourão teria enviado a Vorcaro uma resposta atribuída à empresa aérea, com informações sobre voos e contratantes. Para a PF, o conteúdo indica que o ofício pode ter sido encaminhado, mas os documentos analisados não confirmam a autenticidade da requisição nem demonstram autorização formal para o envio.
O relatório agora integra as investigações conduzidas no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

