Três pesquisas do Instituto IPSensus divulgadas neste fim de semana foram apresentadas como demonstração de que Orleans Brandão (MDB) lidera a disputa pelo Governo do Maranhão em Bacabal, São Domingos do Maranhão e Presidente Dutra. Uma análise estatística dos próprios dados, no entanto, revela que essa conclusão precisa ser tratada com cautela.
Os levantamentos foram realizados separadamente nos três municípios, com amostras que variaram entre 328 e 350 eleitores. Em consequência desse número relativamente reduzido de entrevistas, as margens de erro informadas chegam a 5,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.
Isso significa que os percentuais apresentados não devem ser interpretados como valores exatos. Cada resultado representa uma estimativa que pode variar dentro de um intervalo relativamente amplo.
A margem de erro não torna uma pesquisa automaticamente inválida. Ela, porém, reduz a precisão dos resultados e impede afirmações categóricas quando a diferença entre os candidatos é pequena.
Presidente Dutra tem empate, não liderança definida
A situação mais evidente ocorre em Presidente Dutra. Orleans Brandão aparece com 43,7%, enquanto Eduardo Braide (PSD) registra 39,1%. A diferença nominal é de apenas 4,6 pontos percentuais.
O próprio levantamento informa margem de erro de 5,2 pontos para mais ou para menos. Assim, Orleans pode estar entre 38,5% e 48,9%, enquanto Braide pode variar entre 33,9% e 44,3%.
Os intervalos apresentam uma ampla área de sobreposição. Estatisticamente, portanto, a pesquisa não permite afirmar que Orleans esteja efetivamente à frente. O resultado correto é de empate técnico entre os dois candidatos.
Dizer que um candidato “lidera” quando a distância é menor que a própria margem de erro transforma uma vantagem meramente numérica em uma conclusão que os dados não sustentam.
A pesquisa de Presidente Dutra ouviu 350 eleitores entre 30 de agosto e 2 de setembro. O levantamento, contratado pela L M Bogea, identificada como Grupo JP, foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número MA-09458/2026.
Bacabal exige cautela
Em Bacabal, Orleans registra 38,57% e Braide aparece com 28,57%. A diferença nominal entre os dois é de dez pontos percentuais.
Embora a distância seja maior do que em Presidente Dutra, a margem de erro de 5,2 pontos produz intervalos muito próximos. Orleans pode variar entre aproximadamente 33,37% e 43,77%. Braide, por sua vez, pode estar entre 23,37% e 33,77%.
No limite dos intervalos divulgados, os resultados praticamente se encontram. Isso indica uma vantagem estatística estreita, sensível ao desenho da amostra e às ponderações utilizadas.
Em um modelo simplificado de amostragem aleatória, a diferença de dez pontos ainda aparece ligeiramente acima do limite necessário para afastar um empate. Mas essa conclusão está muito próxima da fronteira estatística e depende de a coleta ter obedecido rigorosamente às premissas do plano amostral.
Por esse motivo, o resultado autoriza falar em vantagem provável ou liderança numérica, mas recomenda cautela com uma afirmação categórica de cenário consolidado.
O levantamento ouviu 350 pessoas entre 1º e 5 de setembro, possui nível de confiança de 95% e está registrado sob o número MA-04925/2026.
São Domingos apresenta diferença mais consistente
Em São Domingos do Maranhão, a distância é consideravelmente maior. Orleans alcança 49,4%, enquanto Braide registra 20,1%, uma diferença de 29,3 pontos percentuais.
Mesmo considerando a margem informada de cinco pontos, Orleans estaria entre 44,4% e 54,4%, enquanto Braide apareceria entre 15,1% e 25,1%. Nesse caso, os intervalos permanecem separados.
Entre os três municípios, São Domingos é o único em que a diferença observada é suficientemente ampla para permitir uma conclusão mais segura sobre a primeira colocação dentro das condições informadas pela pesquisa.
Ainda assim, o levantamento ouviu somente 328 eleitores. Isso mantém uma incerteza elevada sobre o percentual exato de cada candidato, embora não seja suficiente, neste caso, para inverter a ordem dos dois primeiros colocados.
A coleta foi realizada entre 28 e 30 de agosto e registrada na Justiça Eleitoral sob o número MA-00334/2026.
Margens acima de cinco pontos limitam precisão
Pesquisas com 328 ou 350 entrevistados podem ser utilizadas para produzir um retrato municipal, desde que sejam respeitados o método de seleção, a distribuição territorial e o perfil demográfico do eleitorado.
O principal problema está na precisão. Uma margem superior a cinco pontos é consideravelmente ampla para avaliar disputas eleitorais apertadas.
Além disso, a margem de erro divulgada cobre apenas a incerteza relacionada à seleção da amostra. Ela não contempla possíveis falhas na escolha dos locais de entrevista, recusas, ausência de determinados grupos, aplicação incorreta de questionários, ponderações excessivas ou erros operacionais.
Sem acesso público detalhado à distribuição das entrevistas por bairro, zona urbana e rural, sexo, idade, escolaridade, renda e religião, também não é possível avaliar integralmente se os entrevistados reproduzem de forma adequada o eleitorado de cada município.
Contratante e veículo pertencem ao mesmo grupo
Outro aspecto que exige transparência é o fato de os três levantamentos terem sido contratados pela L M Bogea, identificada nas publicações como Grupo JP, ao mesmo tempo em que os resultados foram divulgados pelo Jornal Pequeno.
Essa coincidência não invalida estatisticamente as pesquisas e não constitui, por si só, prova de interferência nos resultados. No entanto, trata-se de uma informação relevante para que o leitor conheça a origem do levantamento e avalie com clareza a relação entre contratante e veículo divulgador.
Pesquisa não é fotografia exata
Os números não autorizam descartar todos os três levantamentos. Também não permitem reunir situações estatisticamente diferentes sob uma única manchete de liderança.
Em São Domingos, a vantagem de Orleans é ampla e resiste à margem de erro. Em Bacabal, existe vantagem numérica com segurança estatística limitada. Em Presidente Dutra, há empate técnico e nenhuma liderança pode ser afirmada com base nos resultados apresentados.
A leitura adequada, portanto, é que Orleans aparece numericamente à frente nos três levantamentos, mas possui liderança estatisticamente mais consistente apenas em São Domingos. Em uma pesquisa com margem de até 5,2 pontos, transformar pequenas diferenças em certezas eleitorais ultrapassa aquilo que a amostra efetivamente permite concluir.

