Ministros enfrentam desgaste em meio à crise do Banco Master; decisões revertidas e confronto com a PF aumentam a pressão sobre André Mendonça.
A crise envolvendo o Banco Master ampliou o desgaste público dos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Pesquisa Datafolha mostra que parcelas expressivas da população defendem algum tipo de medida contra os dois magistrados, embora os questionamentos e as circunstâncias envolvendo cada um sejam diferentes.
No caso de Mendonça, 37% dos entrevistados defendem que ele deixe temporariamente o cargo enquanto sua atuação é apurada. Outros 12% apoiam a abertura de um processo de impeachment e 11% consideram que o ministro deveria renunciar. Somadas, as três alternativas foram escolhidas por 60% dos participantes. Por outro lado, 25% disseram não identificar irregularidades em sua conduta. Os dados foram confirmados pela CNN Brasil.
Os números aparecem em um momento especialmente delicado para Mendonça. Em 8 de setembro, o ministro determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. Ele alegou ter sido alvo de monitoramento ilegal e classificou como irregulares relatórios produzidos pela área de inteligência da PF. A ordem foi tomada por Mendonça após pedido do partido Novo.
A medida, porém, não prevaleceu. No dia seguinte, Flávio Dino determinou a reintegração dos dois dirigentes. Posteriormente, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as ordens conflitantes e manteve Andrei Rodrigues no comando da Polícia Federal.
A corporação também contestou a versão apresentada por Mendonça. Em manifestação encaminhada a Fachin, Andrei negou que a PF tenha monitorado ilegalmente o ministro. Segundo ele, os relatórios foram produzidos regularmente pela área de inteligência e enviados a Alexandre de Moraes para cumprir uma ordem judicial.
O episódio aprofundou as dúvidas sobre a atuação de Mendonça no caso Master. Além de afastar integrantes da cúpula da PF por uma decisão posteriormente revertida, o ministro passou a questionar documentos da própria corporação e, mais recentemente, manifestou-se contra o compartilhamento integral dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro com os demais integrantes do Supremo.
A resistência ocorreu mesmo depois de a Polícia Federal informar que possui condições técnicas para entregar cópias do material aos ministros, preservando o sigilo. Mendonça sustenta que a apresentação de novos elementos poderia tumultuar o julgamento e prejudicar as investigações. Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, entretanto, defendem acesso igualitário à íntegra das informações.
Moraes também sofre desgaste
Embora Mendonça esteja no centro dos conflitos institucionais mais recentes, os percentuais mais severos da pesquisa recaem sobre Alexandre de Moraes. Para 28% dos entrevistados, o ministro deveria enfrentar um processo de impeachment; 34% defendem seu afastamento temporário e 13% consideram que ele deveria renunciar.
Ao todo, 75% escolheram uma dessas três medidas. Outros 7% afirmaram não identificar irregularidades na atuação do ministro, enquanto 5% entenderam que não houve problema porque a obtenção das provas por Mendonça teria ocorrido de forma ilegal.
Moraes passou a ser questionado depois da divulgação de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a um contato atribuído a ele pelos investigadores. O material menciona encontros, pedidos de orientação e solicitações de proteção diante do avanço das investigações sobre o Banco Master.
Há, contudo, uma limitação relevante: como os dados foram extraídos exclusivamente do celular de Vorcaro, o relatório não contém eventuais respostas de Moraes. O conteúdo disponível, portanto, não permite concluir isoladamente como o ministro reagiu às mensagens nem se atendeu aos pedidos atribuídos ao ex-banqueiro.
A Procuradoria-Geral da República pediu a anulação do relatório, e o plenário do Supremo deverá definir os próximos passos. Moraes também afirmou que informações importantes sobre as investigações permaneceram sob sigilo na relatoria de Mendonça e defendeu que os demais ministros tenham acesso ao conjunto dos documentos.
Desconfiança atinge todo o Supremo
O desgaste ultrapassa a disputa entre os dois ministros. Segundo o Datafolha, 76% dos brasileiros consideram que os integrantes do STF possuem poder excessivo, enquanto 18% discordam. Outros 77% concordam que a população acredita menos na Corte atualmente do que no passado. A pesquisa também mostra, entretanto, que 71% consideram o Supremo essencial para a proteção da democracia.
O levantamento ouviu 2.002 pessoas com 16 anos ou mais em 125 municípios, entre 8 e 10 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Encomendada pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, a pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-01833/2026.

