Uma gravação de 37 minutos colocou o assassinato do empresário João Bosco Pereira Oliveira Sobrinho, ocorrido em 2022, no centro da disputa política que divide o Maranhão. No diálogo, o então secretário estadual Raimundo Cutrim orienta o pai do autor confesso do crime sobre a construção de uma nova versão para os depoimentos e afirma não acreditar no envolvimento de Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado e sobrinho do governador Carlos Brandão.
O conteúdo foi utilizado pela Polícia Federal na investigação que levou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, a determinar a prisão domiciliar e o afastamento de Cutrim do cargo.
A conversa ocorreu entre Raimundo Cutrim e Cezar Cutrim, pai de Gilbson Cezar Soares Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato. Em um dos trechos, o ex-secretário sustenta que Gilbson deveria estabelecer uma única “linha” para o novo depoimento e apontar quais declarações anteriores seriam falsas.
“Ele tem que dizer o que ele disse na delação dele. E tem que dizer o que é mentira. Olha, no caso do Daniel, eu não vejo como o Daniel pessoalmente esteja envolvido nesse crime, porque não está. Não tem como”, afirma Cutrim na gravação.
O diálogo também apresenta orientações sobre o que deveria ser dito pela mulher de Gilbson, Lorena. Segundo o teor divulgado, ela deveria afirmar que atravessava dificuldades financeiras quando foi procurada por terceiros interessados em obter declarações contra pessoas próximas ao governador.
Em outro momento, Cutrim menciona a possibilidade de Lorena alegar ter agido em “estado de necessidade”:
“Ela vai dizer que ele estava numa situação financeira, passando fome, e ela fez isso em estado de necessidade. Lembra que estado de necessidade não tem crime.”
A gravação também traz a alegação de que Lorena teria recebido R$ 300 mil de adversários políticos para incriminar integrantes do grupo governista. Cutrim cita políticos ligados ao campo de Flávio Dino, entre eles o vice-governador e pré-candidato ao governo, Felipe Camarão (PT). Na própria conversa, porém, não são apresentados elementos que comprovem essas acusações.
Repasses atribuídos a uma relação de amizade
Ao tratar de possíveis transferências de dinheiro de Daniel Brandão para Gilbson, Cutrim procura afastar qualquer relação entre os pagamentos e o homicídio. Segundo ele, os valores teriam sido entregues como ajuda decorrente de uma amizade antiga.
“Eles tinham uma amizade de muito tempo. Se ele pedisse alguma coisa, ele já dava. Eu te dou dois, três mil, eu estou te comprando com isso?”, argumenta.
Em diferentes momentos do diálogo, o ex-secretário insiste que Gilbson deveria “falar a verdade” e abandonar a versão que, na avaliação dele, teria sido construída com interferência de adversários políticos.
O assassinato
João Bosco Pereira Oliveira Sobrinho, de 46 anos, foi morto a tiros em 19 de agosto de 2022, na entrada do edifício Tech Office, na Ponta d’Areia, em São Luís. O autor dos disparos, Gilbson Cezar Soares Cutrim Júnior, confessou o crime.
Imagens de câmeras de segurança mostraram Gilbson conversando com a vítima momentos antes do homicídio. No local também estavam um vereador e Daniel Brandão, que, naquele período, ocupava o cargo de secretário-chefe da Assessoria Especial do governo estadual.
A investigação original associou o crime a um desentendimento relacionado à liberação de uma comissão sobre um pagamento de aproximadamente R$ 800 mil da Secretaria de Estado da Educação. João Bosco havia sido nomeado para um cargo de confiança na pasta no ano anterior.
Gilbson sustentou inicialmente que agiu após uma desavença pessoal. Em 2025, ele e Lorena passaram a apresentar uma nova versão, segundo a qual teriam recebido pagamentos para manter essa narrativa e proteger pessoas ligadas ao entorno do governador.
Como as novas declarações envolviam suspeitas relacionadas a um governador, o caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Posteriormente, a defesa de Gilbson apresentou um habeas corpus ao STF, distribuído por sorteio ao ministro Flávio Dino.
Crise política como pano de fundo
A investigação avançou em meio ao rompimento entre os grupos de Carlos Brandão e Flávio Dino. O governador decidiu permanecer no cargo, em vez de renunciar para disputar o Senado, impedindo que Felipe Camarão assumisse o comando do Estado.
Brandão apoia a pré-candidatura de outro sobrinho, Orleans Brandão (MDB), ao Governo do Maranhão. Dino, embora esteja no STF desde 2024, conserva forte influência sobre o grupo político que comandou o Estado entre 2015 e 2022.
A divulgação da gravação acrescenta um novo capítulo à crise, ao revelar uma conversa em que um integrante do governo orienta a formulação de depoimentos capazes de alterar o rumo da investigação e afastar suspeitas de pessoas próximas ao núcleo governista.
O que dizem os citados
O advogado Berilo Freitas, responsável pela defesa de Raimundo Cutrim, declarou que o ex-secretário não tentou proteger qualquer pessoa. Segundo ele, o objetivo era obter informações sobre o suposto pagamento feito a Lorena e orientar os envolvidos a dizerem a verdade.
Durante buscas realizadas na residência de Cutrim, foram encontradas munições e 26 armas, algumas apontadas na decisão como sem registro. A defesa afirmou que ele atuou durante 44 anos na Polícia Federal, foi secretário estadual de Segurança Pública em duas oportunidades e é colecionador regularmente cadastrado perante os órgãos competentes.
Em manifestação divulgada nas redes sociais, Cutrim classificou Flávio Dino como adversário pessoal e político e negou ter praticado obstrução da Justiça.
A assessoria de Daniel Brandão reiterou que ele jamais praticou qualquer ato ilícito e repudiou as tentativas de associar seu nome ao assassinato sem provas. Também destacou que o crime foi investigado, submetido ao Judiciário e resultou na condenação do autor confesso, enquanto as novas acusações surgiram somente anos depois.
Daniel também apresentou boletim de ocorrência no qual afirma ter sido alvo de tentativas de extorsão e intimidação por familiares de Gilbson. Ele não esclareceu, contudo, por que estava no local do encontro em que o assassinato ocorreu.
A defesa de Gilbson informou que não poderia comentar o caso em razão do sigilo da investigação.
O governador Carlos Brandão declarou ter cumprido integralmente a decisão do STF ao exonerar Raimundo Cutrim. Sobre os demais pontos, afirmou que o governo não fará comentários porque o procedimento tramita sob sigilo.
O gabinete de Flávio Dino informou que o ministro está afastado de atividades político-partidárias e não se manifesta sobre assuntos políticos.
Com informações do SBT News — reportagem de Ranier Bragon

