Reportagem publicada neste sábado (22) pelo Estadão revela mensagens atribuídas a Roberta Luchsinger sobre reunião no Planalto envolvendo o governador Carlos Brandão; investigação também cita o deputado Fábio Macedo, a subsecretária Lorena Macedo e contratos de empresa ligada ao empresário Cléber Ribas no Maranhão
Uma reportagem publicada neste sábado (22) pelo jornal O Estado de S. Paulo trouxe novos detalhes de uma investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de tráfico de influência envolvendo a lobista Roberta Luchsinger, o empresário Cléber Ribas e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Com base em mensagens encontradas no celular de Roberta Luchsinger indicariam que ela afirmou a Lulinha ter articulado uma reunião entre o governador do Maranhão, Carlos Brandão, e integrantes do Palácio do Planalto,
De acordo com a reportagem, em uma mensagem de áudio enviada a Lulinha, a lobista teria informado que Brandão iria ao Planalto e que a reunião teria relação com uma obra no Maranhão. Na conversa, ela afirmou que o presidente Lula daria continuidade à liberação do empreendimento.
A reunião citada pela lobista, segundo o Estadão, de fato ocorreu. Registros da agenda do então chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, apontam um encontro com o governador maranhense naquele dia, descrito oficialmente como uma “Reunião Executiva”.
Um mês depois, em junho de 2024, o presidente Lula esteve em São Luís e anunciou um pacote de investimentos de aproximadamente R$ 59 bilhões para o Maranhão, dentro do Novo PAC, incluindo obras em áreas como infraestrutura, transporte, Porto do Itaqui e tecnologia.
Contratos e atuação de lobista
Ainda segundo a reportagem, a investigação da PF identificou que Roberta Luchsinger teria atuado na defesa de interesses do empresário Cléber Ribas, incluindo a intermediação de contratos com órgãos públicos.
A empresa 3Structure, ligada ao empresário, teria firmado contratos de aproximadamente R$ 5,8 milhões com o governo do Maranhão em 2024, envolvendo órgãos como o Porto de Itaqui e a Secretaria de Fazenda.
A PF aponta também que Ribas teria pago pelo menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025.
A reportagem afirma que Roberta também teria atuado junto a órgãos do governo federal em favor do empresário, incluindo o Ministério do Desenvolvimento Social.
Pagamento envolvendo hospital no Maranhão
Outro ponto citado pelo Estadão envolve repasses de aproximadamente R$ 4,4 milhões da empresa HSLZ Ltda. para Roberta Luchsinger.
A empresa é responsável pela manutenção do Hospital dos Servidores Públicos do Maranhão, unidade que recebe recursos públicos estaduais.
Questionado pela reportagem, o governo do Maranhão afirmou que não possui ingerência sobre empresas privadas. A HSLZ informou que não comenta publicamente informações comerciais individualizadas de contratos privados.
Relações políticas e respostas
A reportagem também cita conversas e registros que, segundo a investigação, indicariam proximidade de Roberta Luchsinger com políticos e autoridades.
O Estadão relatou ainda uma fotografia em Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses, na qual aparecem Roberta, Lulinha, Cléber Ribas e outras pessoas próximas.
Procurado pelo jornal, o governador Carlos Brandão negou qualquer relação com Roberta Luchsinger e afirmou que sua agenda não depende da articulação de terceiros. Brandão destacou ainda que Lula é um aliado do Maranhão e que obras estão sendo realizadas por meio de parcerias com o Governo Federal.
A defesa de Cléber Ribas afirmou que a contratação de Roberta ocorreu para serviços de assessoria, captação de clientes e identificação de oportunidades de negócios, classificando a atividade como lícita e comum no mercado.
O Palácio do Planalto não se manifestou. A defesa de Lulinha criticou o que chamou de “vazamentos seletivos” e afirmou que eles teriam objetivo de interferir no processo eleitoral.
A reportagem do Estadão amplia o debate sobre as relações entre empresários, lobistas e agentes públicos no Maranhão, colocando novamente no centro das discussões a influência de articulações políticas nos contratos e investimentos públicos.
Leia a matéria completa do Jornal O Estado de São Paulo:
Segue a transcrição organizada da matéria a partir dos prints enviados:
Lobista diz que Lulinha marcou reunião de governador do MA no Planalto e que Lula ia liberar obra
Um mês depois da reunião, presidente foi a São Luís e anunciou um pacote de R$ 59 bi para o Maranhão; governador negou relação com Roberta, defesa de Lulinha critica “vazamentos seletivos” e Planalto e lobista não se manifestaram
BRASÍLIA – A lobista Roberta Luchsinger afirmou em mensagens encontradas no celular dela pela Polícia Federal que Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi responsável por marcar uma reunião no Palácio do Planalto para o governador do Maranhão, Carlos Brandão, e que Lula iria “prosseguir com liberação da obra dele” no Estado.
A investigação sobre suspeitas de tráfico de influência de Roberta Luchsinger e Lulinha, como o filho do presidente é conhecido, detectou que a lobista intermediou a contratação, por órgãos vinculados ao governo do Maranhão, de uma empresa de informática do empresário Cléber Ribas. Ela também atuava em favor dele junto ao governo federal.
A PF também apontou, a partir da quebra de sigilos, que Roberta mantinha diálogos sobre negócios com o governador Carlos Brandão.
Em 22 de maio de 2024, a lobista enviou uma mensagem de áudio a Lulinha informando que seria realizada naquele dia uma reunião do governador do Maranhão com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
“Ó, só pro cê saber. Brandão hoje vai lá no palácio, que seu pai falou que vai prosseguir com aquela liberação da obra dele. Aí o Marcola vai receber ele 16 horas. Eu já avisei o Brandão que você conseguiu a agenda, então se quiser falar com o governador, tá confirmado às 16h, fazer uma moral, tá?”, disse ela na mensagem, conforme transcrição da PF.
Em seguida, ela afirmou a Lulinha: “E eu vou me encontrar com ele pra mim (sic) falar os outros assuntos”.
No diálogo, Lulinha sugere que seria melhor se concentrarem nos “outros assuntos” durante as tratativas com Carlos Brandão.
A reunião de Brandão no Planalto, citada por Roberta em mensagem de áudio a Lulinha, efetivamente ocorreu. A agenda de Marco Aurélio Santana Ribeiro registra, às 17h40 daquele dia, um encontro com o governador, com a presença de dois outros assessores presidenciais. O tema da reunião é descrito apenas como “Reunião Executiva”.
Em 21 de junho de 2024, um mês depois da reunião citada por Roberta, o presidente Lula foi a São Luís (MA) e anunciou um pacote de R$ 59 bilhões em obras para o Maranhão dentro do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Entre as medidas anunciadas estavam a renovação da concessão do Porto do Itaqui, a construção de um novo berço do terminal e a implantação de um novo corredor de transporte na Avenida Litorânea, uma das principais da capital maranhense.
Lobista intermediou R$ 5,8 milhões em contratos no MA
A 3Structure, empresa de Ribas, fechou contratos de R$ 5,8 milhões com o governo do Maranhão em 2024. Os negócios foram firmados junto ao Porto de Itaqui e à Secretaria de Fazenda.
A PF identificou que Cléber Ribas firmou contrato com Roberta Luchsinger para defesa dos seus interesses e pagou ao menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025.
Como mostrou o Estadão, Roberta também defendia interesses de Cléber Ribas junto ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e outros órgãos do governo federal, conforme ela expôs em mensagem trocada com ele em junho de 2023.
Em dezembro de 2023 e abril de 2024, a 3Structure obteve dois contratos de R$ 14,4 milhões e R$ 19,2 milhões com a pasta do governo Lula.
Amiga de Lulinha recebeu R$ 4,4 milhões via hospital
No Maranhão, Roberta Luchsinger também recebeu outros R$ 4,4 milhões da HSLZ Ltda, empresa contratada pelo governo do Maranhão para manter o Hospital dos Servidores Públicos do Maranhão, com recursos públicos do Estado.
Os dados foram obtidos pela investigação por meio de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Questionado sobre esse pagamento, o governo do Maranhão afirmou que “não possui ingerência sobre quaisquer empresas privadas”.
A reportagem perguntou ao diretor-geral do hospital, Plínio Tuzzolo, o motivo do repasse para a lobista. Ele se recusou a dar explicações.
Em nota enviada pela diretoria financeira, o HSLZ disse que “não divulgamos nem comentamos publicamente informações comerciais individualizadas relativas aos contratos privados mantidos com fornecedores e prestadores de serviços, inclusive quanto a valores, condições comerciais e demais disposições contratuais”.
As relações de Roberta e Lulinha com a política maranhense
Em outras conversas encontradas no celular de Roberta Luchsinger, ela demonstra ter relações e acesso com políticos e autoridades do governo estadual.
Em mensagens a Cléber Ribas sobre a intermediação dos contratos, ela disse ao empresário que “o presidente do Porto” o havia elogiado e dito “vamos tocar”.
O governo mantém uma casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, para essa finalidade. O imóvel está situado a menos de cinco quilômetros do endereço que servia como posto avançado de Roberta e Lulinha na capital federal.
Uma foto obtida pelo Estadão mostra um momento de descontração no município de Barreirinhas (MA), porta de entrada do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, um dos principais destinos turísticos do Brasil.
Na imagem aparecem o deputado Fábio, Roberta, Lulinha e Cléber Ribas. Todos estão acompanhados por seus respectivos cônjuges.
Em seu perfil no Instagram, Roberta também publicou fotos em que ela aparece em shows com Lorena e Renata de Abreu Moreira, mulher de Lulinha.
Manifestações
Procurado, Carlos Brandão negou relação com Roberta Luchsinger e disse que sua agenda “não depende da articulação de terceiros”. Ele afirmou que Lula “é um grande aliado do Maranhão, onde grandes obras estão sendo executadas a partir da parceria com o Governo Federal, em diversas áreas”.
A defesa de Cléber Ribas informou que ele contratou Roberta Luchsinger para “serviços de assessoria em questões de captação de clientes e identificação de oportunidades de negócio no ramo de tecnologia, atividade absolutamente lícita e comum no mercado”.
O Palácio do Planalto foi procurado e não se manifestou.
A defesa de Lulinha criticou o que chamou de “vazamentos seletivos” que visam interferir no processo eleitoral.

