Na política, tão importante quanto o discurso é a coerência entre o que se diz e o que se faz. É justamente nesse ponto que a narrativa construída pelo deputado federal Duarte Júnior para justificar sua saída do União Brasil desperta mais perguntas do que oferece respostas.
Ao afirmar que rompeu com o partido por se recusar a aceitar supostos pedidos imorais e por discordar de práticas que agora condena publicamente, Duarte tenta se apresentar como alguém que abandonou um ambiente incompatível com seus princípios. O problema é que essa versão esbarra em uma cronologia difícil de ignorar.
Quando aceitou integrar o União Brasil, Duarte não era um político ingênuo nem desconhecia a realidade nacional. Muito antes de sua filiação, já fazia críticas públicas a figuras importantes da legenda, como o senador Ciro Nogueira. Também eram amplamente conhecidas as controvérsias envolvendo o partido e alguns de seus integrantes. Ainda assim, decidiu seguir adiante.
Mais do que isso: um dos principais atrativos para sua aproximação foi justamente o espaço político que lhe foi concedido. A vice-presidência da CPMI do INSS, cargo cuja indicação cabia ao União Brasil, representou uma vitrine nacional importante para o parlamentar maranhense e foi fruto da articulação liderada por Pedro Lucas Fernandes.
Se, como sustenta agora, o ambiente partidário era tão incompatível com seus valores, por que aceitou a indicação? Por que negociou sua entrada justamente quando já conhecia o histórico e as lideranças da legenda? Essas perguntas permanecem sem uma resposta convincente.
É legítimo que um político mude de partido ou reveja alianças. A política é dinâmica por natureza. O que merece questionamento é a tentativa de reescrever os fatos para transformar uma divergência política em uma epopeia moral.
Se havia incompatibilidade ética desde o início, a coerência recomendaria que Duarte jamais tivesse aceitado ingressar no União Brasil. Se, por outro lado, acreditava que era possível conviver com essas diferenças quando recebeu espaço e protagonismo, mas passou a denunciá-las apenas após o desgaste da relação, sua narrativa inevitavelmente perde força.
No fim das contas, o debate não é sobre quem está certo ou errado na disputa entre Duarte Júnior e Pedro Lucas Fernandes. O ponto central é outro: coerência exige que os princípios orientem as escolhas antes dos benefícios políticos, e não apenas depois que eles deixam de existir.
É justamente essa sequência dos acontecimentos que coloca em xeque o discurso apresentado pelo deputado. Afinal, quando alguém afirma que descobriu defeitos em uma casa onde decidiu morar sabendo exatamente como ela era, a dúvida natural não é sobre a casa, mas sobre a conveniência do momento em que resolveu reclamar dela.


