Há uma velha fábula oriental sobre um homem condenado à morte por um rei muito poderoso e vaidoso.
Preso e à espera da execução, o homem disse a um dos carcereiros do reino que era capaz de ensinar cavalos a falarem porque vinha de uma família de pessoas que tinham esse dom.
O carcereiro espalhou a história pelos corredores do palácio até chegar aos ouvidos do monarca.
Curioso e vaidoso com a possibilidade de possuir algo que nenhum outro soberano possuía, o rei mandou chamar o condenado.
— Você consegue mesmo fazer meus cavalos falarem?
— Consigo, majestade.
— Quanto tempo precisa?
— Um ano.
O rei aceitou a proposta. Se os cavalos falassem, a vida do homem seria poupada. Se não falassem, a sentença seria cumprida.
Quando deixou a presença do rei, um dos presentes no fechamento daquele acordo impossível o abordou.
— Você enlouqueceu? Cavalos não falam.
O condenado sorriu.
— Eu sei. Mas agora tenho um ano. Em um ano, o rei pode morrer. O cavalo pode morrer. O reino pode mudar. Muita coisa pode acontecer. O importante é que eu ganhei tempo.
É uma fábula engraçada sobre sabedoria, estratégia e sobrevivência E faz todo sentido: às vezes, ganhar tempo é a única solução disponível, em política, principalmente.
Durante boa parte do processo sucessório maranhense, o governador Carlos Brandão jogou exatamente esse jogo.
Primeiro, administrou a própria permanência no cargo. Depois, conduziu o processo de consolidação do nome de Orleans Brandão para a disputa pelo Governo do Estado. Agora, mantém em aberto as definições para montas vagas da chapa de seu grupo para o Senado.
A estratégia de ganhar tempo funcionou para viabilizar Orleans Brandão.
A indefinição preservou a governador como principal player do jogo, evitou rupturas prematuras e manteve a classe política orbitando o Palácio dos Leões. Enquanto a decisão não vinha, todos continuavam olhando para o mesmo lugar.
Mas há um detalhe que a fábula ensina apenas nas entrelinhas: ganhar tempo não significa controlar o tempo.
Em algum momento, o relógio começa a correr na direção contrária.
É exatamente o que começa a acontecer na disputa pelo Senado.
Sem uma definição clara do campo governista, lideranças que antes aguardavam exclusivamente os movimentos de Brandão passaram a olhar para outras possibilidades. E a principal delas atende pelo nome de Eduardo Braide.
Nos bastidores, a movimentação é perceptível. O deputado estadual Fernando Braide, irmão do ex-prefeito deixou claro em uma entrevista nesta semana, que há disposição para dialogar com nomes como Roberto Rocha, Lahesio Bonfim, André Fufuca e Duarte Júnior na construção de uma chapa competitiva ao lado de Eduardo Braide.
A mensagem de Fernando é simples: Enquanto Brandão não decide, Braide está aberto para conversar.
A verdade é que hoje, praticamente todos os interessados na disputa ao Senado têm razões para manter algum canal aberto com o grupo liderado pelo ex-prefeito de São Luís. Todos, com uma exceção de Weverton Rocha.
Weverton continua apostando suas fichas numa definição vinda do Palácio dos Leões. Os demais observam o cenário com crescente pragmatismo.
Por isso, a cada semana de indefinição, Braide ganha algo que talvez seja ainda mais valioso do que uma aliança formal: ele ganha centralidade e preferência.
O problema agora é que Brandão já não tem mais o tempo a seu favor, o tempo passou e é preciso fazer o cavalo falar.
Como todos nós sabemos que os cavalos não falam…


