Inquérito apura contratos públicos, movimentações financeiras e a atuação de empresas ligadas a familiares do governador do Maranhão; defesa afirma que não teve acesso aos autos
A Polícia Federal pediu à Justiça o afastamento do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), em uma investigação sobre suspeitas de desvio de recursos públicos. O pedido integra um inquérito que examina contratos firmados pela Prefeitura de Colinas, cidade natal do governador, e pelo governo estadual com empresas que, segundo os investigadores, beneficiariam integrantes de sua família.
A informação foi publicada pela Folha de São Paulo nesta quinta-feira (24). O afastamento foi solicitado pela PF, mas não havia sido determinado, conforme a reportagem.
A apuração teve origem em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que apontou operações consideradas atípicas, principalmente em Colinas. Em 2024, o caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR) e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). As suspeitas envolvem, entre outras possíveis irregularidades, lavagem de dinheiro, fraude em licitações, corrupção e organização criminosa.
Segundo a reportagem, os investigadores analisam a movimentação de empresas do grupo Brandão e contratos com órgãos públicos. A hipótese examinada pela PF é a de que companhias ligadas ao grupo tenham recebido recursos de contratos considerados suspeitos e repassado valores a outras empresas ou a pessoas relacionadas à família. Essas suspeitas ainda são objeto de investigação.
Entre as empresas mencionadas estão Cogari, Gás do Sertão, Disval, Vigas Engenharia e EMA (Empreendimentos do Maranhão). De acordo com a Folha, elas aparecem em registros de pagamentos feitos pela Prefeitura de Colinas e pelo governo estadual. No período de 2017 a julho de 2023, a Cogari teria recebido R$ 77,5 milhões em contratos públicos. Desse montante, quase R$ 36,7 milhões teriam sido transferidos a outras empresas do grupo, conforme os dados citados na reportagem.
Outro ponto sob análise é o uso de recursos do Fundef. A investigação menciona R$ 13,2 milhões em pagamentos feitos pelo governo do Maranhão à Vigas, à Cogari e à Disval. A PF busca esclarecer a destinação desses valores e a relação entre as empresas contratadas.
A Operação Monte Sinai, deflagrada pela Polícia Federal, também é citada na apuração. Ela investiga um suposto esquema de contratos na área da educação no Maranhão. No caso de Colinas, a PF examina indícios de licitações fraudulentas, repasses entre empresas e possíveis pagamentos a integrantes do grupo investigado.
O inquérito ganhou dimensão política porque alcança pessoas próximas ao governador. Além de Carlos Brandão, a investigação menciona seu sobrinho Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), dois irmãos e uma filha do governador. A reportagem registra ainda a relação entre Daniel Brandão e o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que foi governador do Maranhão e rompeu politicamente com seu sucessor.
Dino tomou decisões em processos distintos envolvendo integrantes do grupo político do governador. Em um deles, relacionado a uma ação sobre nepotismo, determinou medidas contra Daniel Brandão. Em outro, ligado ao TCE-MA, houve afastamento e pedido de busca e apreensão contra Eduardo José Henrique Brandão, ex-prefeito de Colinas e tio de Carlos Brandão, conforme a Folha. A reportagem ressalta que esses processos não se confundem com o inquérito sobre os contratos investigados pela PF.
A defesa de Carlos Brandão informou ao jornal que não se manifestaria sobre o pedido de afastamento porque não teve acesso aos autos. O governador também afirmou anteriormente que não poderia comentar suspeitas das quais não conhecia os elementos. Segundo a Folha, as empresas mencionadas não responderam aos questionamentos enviados.
O pedido da Polícia Federal será analisado pela Justiça. Até que haja uma decisão, as suspeitas descritas no inquérito permanecem sob apuração e não constituem conclusão de culpa dos investigados.

