Assim como a maioria dos que leram a pesquisa AtlasIntel para o senado no Maranhão, divulgada na última sexta-feira (15), eu também fiquei surpreso com a liderança isolada da Senadora Eliziane Gama (PT) e do deputado federal Duarte Jr. (Avante)
Lógico que já era esperado um bom desempenho de ambos na pesquisa, uma vez que eles são parlamentares com extensa produção legislativa e muito conhecidos na capital maranhense, com eleitores que influenciam o restante do estado, mas confesso que não imaginava tal cenário.
Felizmente, a pesquisa AtlasIntel fez o que a maioria dos institutos não costuma fazer: trouxe os dados qualitativos do levantamento. Eles me ajudaram a entender porque, de fato, Eliziane e Duarte são os dois nomes mais competitivos para o Senado Federal neste momento. Compartilho com vocês a seguir uma avaliação qualitativa da pesquisa para sustentar esse argumento:
A pesquisa AtlasIntel, revela que a disputa pelo Senado não ocorre em um vácuo, mas funciona como um espelho das tensões e perfis observados na corrida pelo governo estadual. A parte qualitativa dos dados desvenda a incógnita por trás da liderança de Eliziane Gama (PT) e Duarte Jr. (Avante), que aparecem tecnicamente empatados com 19,5% e 19,4% das intenções de voto consolidado, respectivamente. Essa dianteira é sustentada por uma ocupação estratégica de nichos demográficos que mimetiza perfeitamente o comportamento dos principais candidatos ao Palácio dos Leões.
Duarte Jr. consolida sua posição como o herdeiro da renovação urbana e geracional, traçando um paralelo direto com o fenômeno de Eduardo Braide (PSD), que curiosamente foi seu maior adversário na eleição municipal de 2024.
A força motriz de Duarte reside no eleitorado mais jovem, onde atinge 20,4% entre os 16 e 24 anos, capturando o mesmo pulsar de mudança que dá a Braide uma dominância assustadora de 82,5% nesse grupo.
Regionalmente, Duarte é o nome da Capital (19,7%) e do Norte Maranhense (19,8%), áreas onde o desejo de uma gestão diferente da atual supera os 85%. Com a segunda menor rejeição do estado (16,4%), Duarte Jr. posiciona-se como a “ponte” para o futuro, atraindo o eleitor metropolitano que busca uma estética política conectada e dinâmica, idêntica à que sustenta o favoritismo de Braide.
Em uma direção oposta, Eliziane Gama ancora sua liderança na tradição e no alinhamento com a base lulista, refletindo o perfil de resistência que o governismo busca no interior. Enquanto Duarte domina o asfalto, Eliziane é a candidata da maturidade e do interior, com seu pico de performance na faixa de 35 a 44 anos (22,3%) e uma presença avassaladora no Leste Maranhense (23,5%), região que também é o principal reduto de Orleans Brandão (39,1%). Sua candidatura funciona como o contrapeso institucional ao ímpeto de renovação da capital, sendo a escolha prioritária de 23,3% dos eleitores de Lula. Ela lidera porque personifica a fidelidade ao projeto nacional, embora carregue o desafio de uma rejeição de 36,3%, concentrada justamente no eleitorado masculino e conservador que tende a rejeitar a esquerda.
Essa simetria entre os perfis de governo e Senado revela que o eleitor está “casando” suas expectativas: quem busca a eficiência gerencial e a ruptura de Braide inclina-se para a juventude de Duarte; já quem prioriza a rede de proteção federal e a continuidade do projeto lulista no interior encontra em Eliziane seu porto seguro.
Vale dizer que os demais pré-candidatos avaliados pela pesquisa, são todos igualmente competitivos em função do alto grau de fragmentação e indecisão do eleitor.
Enquanto a polarização entre renovação urbana e tradição lulista impulsiona Duarte e Eliziane, os demais candidatos ao Senado enfrentam desafios estruturais que vão do isolamento em bolhas ideológicas ao desgaste de imagem e ao desconhecimento público. A análise dos dados demográficos revela que, para nomes como Roberto Rocha, Weverton Rocha, Roseana Sarney e André Fufuca, o caminho até 2026 exige romper muros de resistência significativos.
O principal desafio de Roberto Rocha (Novo) é transformar sua força orgânica na direita em um apoio transversal que fure a bolha do conservadorismo. Ele é o candidato que melhor capitaliza o espólio de Jair Bolsonaro, detendo 28,7% dos votos desse eleitorado. Regionalmente, sua cidadela é o Centro Maranhense (21,7%), área de maior resistência ao lulismo. Contudo, seu “teto de vidro” é nítido: ele possui uma imagem negativa de 35% e um índice de “não sei” sobre sua imagem de 39%, indicando que, apesar de anos de vida pública, ele ainda não conseguiu projetar uma marca clara para o eleitorado de centro e de esquerda, onde atrai apenas 5,6% dos eleitores de Lula, efeito claro de sua ruptura com Flávio Dino e a esquerda, que o ajudaram a ser vice-prefeito de São Luís e senador. Para Roberto, o desafio é provar que não é apenas um candidato ocasional e temático do bolsonarismo, mas uma alternativa com experiência e capacidade técnica.
Weverton Rocha (PDT) vive um paradoxo estratégico: ele lidera as intenções de segundo voto (11,6%), mas mingua como escolha prioritária, registrando apenas 6,8% no primeiro voto. Esse dado sugere que Weverton é visto como uma alternativa de “contingência” e não como protagonista da mudança. Seu maior obstáculo é a erosão de sua imagem, que hoje acumula 47% de avaliações negativas e uma rejeição de 31,1%. Diferente de 2022, Weverton agora precisa reconstruir sua base no interior, onde seu desempenho no Leste e no Centro (em torno de 11%) mostra que ele perdeu o monopólio da oposição regional para nomes mais novos ou mais alinhados à polarização nacional.
Para Roseana Sarney (MDB), o desafio é puramente geracional e de rejeição histórica. Ela enfrenta um índice de rejeição de 37,1%, o maior entre os candidatos competitivos ao Senado.
Seus dados demográficos revelam uma candidatura que resiste no passado: sua força está entre os idosos (9,4%) e reduz muito entre os jovens de 16 a 24 anos (6,2%). Além disso, Roseana possui um desempenho melhor entre as mulheres (8,4%) do que entre os homens (4%), sugerindo que seu legado ainda ressoa em nichos específicos, mas tem dificuldade de dialogar com o eleitorado que busca renovação. O desafio de Roseana é provar que sua experiência ainda é um ativo valioso em um estado que, em sua maioria (77,1%), grita por uma gestão diferente da tradicional.
Por fim, André Fufuca (PP) enfrenta o desafio do anonimato político em uma eleição majoritária de alta voltagem. Impressionantes 41% dos eleitores afirmam não conhecer sua imagem o suficiente para avaliá-la. Embora ele mostre alguma força entre os adultos de 25 a 34 anos (13,3%), sua penetração nas mesorregiões é baixa, não ultrapassando 9% em redutos importantes como o Sul e Oeste. Com uma rejeição de 27,5%, o desafio de Fufuca é nacionalizar sua imagem e descolar-se da pecha de político de bastidor para se tornar uma opção viável no cenário de primeiro voto, onde hoje registra apenas 4,6%.
Em suma, enquanto os líderes Duarte e Eliziane surfam em ondas de identidade clara, os demais lutam contra o estigma do passado, a falta de uma marca própria ou o isolamento em nichos que, sozinhos, não garantem a vitória em uma disputa de duas vagas.
O sucesso final dessa disputa dependerá de quem conseguirá converter muros de rejeição em pontes de aceitação, navegando nas águas incertas de um eleitorado que, embora polarizado, busca soluções pragmáticas para dores como a criminalidade (48,4%) e a saúde (45,6%), maiores preocupações do eleitorado maranhense neste momento.

