Há no Maranhão uma leitura quase automática e, muitas vezes, equivocada sobre o peso eleitoral do presidente Lula.
Ao longo dos anos, consolidou-se a ideia de que seu apoio funciona como um ativo linear, transferível de forma direta e suficiente para alterar qualquer cenário. A realidade, no entanto, é que o peso de Lula é relativo.
O peso de Lula não é absoluto. Ele é condicionado.
Depende da estratégia de cada candidatura, da forma como esse apoio é incorporado ao discurso e, sobretudo, de como o eleitor percebe a relação entre o candidato e o presidente. Em termos mais objetivos: não basta ter Lula. É preciso saber traduzir Lula eleitoralmente.
E é justamente essa diferença de leitura que começa a organizar o tabuleiro de 2026 no Maranhão.
No caso de Eduardo Braide, um eventual apoio de Lula teria um papel claramente complementar. Sua base eleitoral já está consolidada em outros segmentos, mas há uma faixa específica do eleitorado, mais identificada com o campo progressista, porém não radicalizada, que pode ser atraída ou repelida a depender desse alinhamento.
Para esse eleitor, Lula funciona como um selo de aceitabilidade política. Não é o fator central da decisão, mas pode facilitar a migração de voto. As leituras internas, inclusive, indicam que, em um cenário com esse tipo de composição, Braide poderia ampliar seu alcance a ponto de tensionar uma vitória ainda no primeiro turno.
Já no campo governista, a lógica é distinta.
Orleans Brandão estrutura sua candidatura a partir de um eixo essencialmente local. Sua força está diretamente ancorada na máquina administrativa e, sobretudo, na figura do governador Carlos Brandão. É essa relação que organiza sua narrativa de continuidade.
Nesse contexto, o apoio de Lula tende a ter um peso secundário. Pode agregar valor institucional, especialmente em agendas conjuntas com o governo federal, que fez muitas obras em parceria com o governo do Estado, mas não é o elemento estruturante da candidatura. A transferência de voto, nesse caso, está muito mais vinculada à percepção de continuidade do atual governo do que a qualquer chancela externa.
Com Felipe Camarão, o cenário se inverte.
Para ele, a associação com Lula não é acessória, é central. Sua estratégia depende, em larga medida, de consolidar-se como o representante inequívoco do lulismo no Maranhão. Mais do que isso: de se apresentar como a síntese entre o legado do campo dinista e a força política do presidente.
O desafio, portanto, é menos conquistar o apoio e mais torná-lo incontestável junto o eleitorado. Em um estado onde a identificação com Lula permanece relevante, essa narrativa pode ser o principal vetor para viabilizar competitividade e, sobretudo, garantir presença em um eventual segundo turno.
Por fim, há o caso de Lahesio.
Sua movimentação recente expôs um dilema clássico de candidaturas de oposição: a calibragem da polarização. Ao tensionar diretamente com Braide, Lahesio acabou gerando ruído dentro de uma parcela do seu próprio eleitorado, especialmente o segmento mais à direita, que passou a questionar o sentido estratégico desse confronto.
A percepção de que poderia estar, ainda que indiretamente, favorecendo o grupo governista exigiu uma leve mudança de rota.
Ainda assim, a lógica da polarização permanece válida. Braide lidera as pesquisas e disputa diretamente o eleitorado de direita. O ponto é que, para Lahesio, o cenário mais favorável não é apenas polarizar com Braide, mas inserir um elemento ideológico mais nítido na disputa.
E é aí que entra Lula.
Uma candidatura de Felipe Camarão fortemente associada ao presidente cria o ambiente ideal para Lahesio reorganizar seu discurso, reposicionando-se como contraponto claro ao campo lulista. Essa clivagem, mais do que a disputa direta com Braide, tende a oferecer a ele um eixo mais consistente de crescimento.
No fim, o que se observa é um erro recorrente de análise: tratar o apoio de Lula como uma variável uniforme.
Ele não é.
Seu peso varia conforme o desenho de cada candidatura, a base eleitoral que se pretende atingir e a coerência entre discurso e estratégia.
Na política, não basta ter um ativo relevante.
É preciso saber onde e como ele realmente faz diferença.
Rogério Cafeteira foi deputado estadual por dois mandatos, secretário de Esportes e secretário adjunto de articulação política do Maranhão.

